Nomes e famílias - António Agostinho Homem

20-11-2013 12:05

No último artigo que escrevi para este jornal (Jornal de Aldeia Viçosa, n.º 1 - 2002) disse, referindo-me aos emigrantes, que famílias houve que daqui saíram e que nunca mais voltaram à sua Aldeia.

   Outras há, no entanto, que aqui assentaram arrais e daqui nunca mais saíram ou, se o fizeram, foi em reduzido número de membros.

   Em 1902, há precisamente um século, José Osório da Gama e Castro publicou uma série de apontamentos históricos sobre a Diocese e Distrito da Guarda. Um dos Capítulos trata das “Famílias e Pessoas Notáveis”. Entre muitas delas, há algumas que ainda hoje têm descendentes em Aldeia Viçosa. É o caso dos Coutinhos, apelido ligado ao nome de muitas pessoas.

  O Conde D. Henrique, nos primórdios da nacionalidade, pediu ajuda aos fidalgos da Europa para conquistar algumas terras aos Mouros. Vieram, então, em seu auxílio dois fidalgos húngaros, de apelido Fonseca, que foram determinantes nas conquistas das terras de Lamego. Como recompensa, D. Henrique deu-lhes o Couto de Leomil, entre aquela cidade e Moimenta da Beira.

   Com tal couto tinha uma área insignificante, os outros fidalgos começaram a chamar aos Fonsecas, com alguma dose de humor, Coutinhos.Um dos fidalgos achou graça ao nome e juntou ele próprio o apelido Coutinho ao de Fonseca, passando a chamar-se Fonseca Coutinho e, mais tarde, só Coutinho.

   Foram estes os progenitores de D. Vasco Coutinho, Conde de Marialva, que esteve nas expedições a Ceuta; de Álvaro Gonçalves Coutinho, o célebre Magriço de que nos fala Camões nos Lusíadas, e de todos os Coutinhos que hoje abundam em Portugal e ilustram a nossa Aldeia.

   Outra família a que Gama e Castro se refere na sua obra é a dos Pinas. O mais famoso é ainda hoje, sem qualquer dúvida Rui de Pina, cronista do Reino e Guarda-Mor da Torre do Tombo que terá nascido na cidade da Guarda em meados do século XV. Todos conhecem a rua com o seu nome, na parte antiga da cidade, e a casa onde se diz ter nascido, com a lápide a dizer-nos que “aqui nasceu o príncipe dos cronista portugueses”.

   Aldeia viçosa é um dos lugares onde os Pinas ainda hoje têm numerosos continuadores do nome. Destaco, entre eles, o jornalista, homem de letras e autor de várias obras, Manuel António Pina, com residência no Porto, filho dum natural de Aldeia Viçosa e de, por sua vez, pai da jornalista e também autora de temas relacionados com a comunicação social, Sara Pina. O próprio autor destas linhas poderia ter também este apelido, já que a sua avó paterna se chamava Isabel Ferreira de Pina.

   Quando se fala de pessoas e famílias notáveis destas paragens, não pode deixar de mencionar-se a família dos “Soares”, Talvez a mais poderosa de todas.

   D. Mem Soares ajudou D. Afonso III, o Bolonhês, nas várias batalhas e chegou a acompanhá-lo na conquista do Algarve. Obteve, por isso, daquele monarca grandes recompensas e, entre elas, o senhorio da antiga vila de Melo, hoje pertencem-te ao concelho de Gouveia. Conhecidos como os Soares de Melo, por causa daquela doação, o seu domínio estendeu-se aos concelhos de Celorico (a que pertencia na altura o lugar de Porco), Linhares, Gouveia e Seia.

   O prior de Aldeia Viçosa, em 1758,padre José de Almeida escreveu que a Ermida de Nossa Senhora do Carmo foi doada a esta Terra pela casa dos Melo, de que os Soares eram senhorios.

   Não há hoje em Aldeia Viçosa nenhum dos descendentes da família dos Soares; mas a ermida e o lugar de Nossa Senhora do Carmo são bem o testemunho da riqueza e poder desta família que o Padre José de Almeida diz ter sido dono e senhorio de toda a freguesia de Porco.

António Agostinho Homem

Publicado em Jornal de Aldeia Viçosa, n.º 2, 2002